Quinta-feira, 10 de Maio de 2012

CRÓNICAS DO REINO IV SÉRIE

Quando na última crónica escrevi que no reino de Valdecacos da maneira como as coisas estão encaminhadas, os jovens têm que ir para fora ganhar a vida, pois quando muito apenas haverá futuro para meia dúzia deles com cartão laranja, esqueci-me de caracterizar esses celebres cartões que no reino de Valdecacos são na maioria das vezes a chave mestra que dá acesso aos subsídios, aos favores, ao emprego, e por vezes ao poder.
Há pois vários tipos de cartões laranja, mas nem todos levam a determinados lugares e alguns primam mesmo pela exclusividade de se contarem pelos dedos, as pessoas que deles são titulares.
O cartão laranja-platina, o mais exclusivo de todos dá entrada nas altas esferas do poder, não só no reino de Valdecacos mas também em todo o Condado Portucalense, e mesmo na Europa e no mundo. Dá acesso a ordenados fabulosos, gordas contas bancárias, mordomias de toda a ordem, carros topo de gama com chofer, dá direito a tratamento por sua excelência, etc, etc, etc.
São titulares destes cartões o Barão do Lila Dom Furão Barroso, a Baronesa do Terreiro Dona Expropriação Esteves e o Presidente da Fundação do Oriente Dom Staneloy Ho.
O cartão laranja-ouro, serviu para alavancar a carreira de muito boa gente, que sem o dito cujo nunca teria passado da cepa torta. Bons ordenados, reformas e mordomias nunca imaginadas ficaram ao alcance dos titulares deste cartão, cuja importância todavia se restringe às fronteiras do reino. É o cartão mais desejado pelos elementos da nomenclatura laranja, e muitos mantiveram-se militantes ao longo dos anos, na vã esperança de lhes tocar algum, mas poucos foram os escolhidos.
São titulares destes cartões o Presidente das Cortes Dom Juanito de La Bisabuela, o Barão de Ferreiros Dom Xico Mirandum, o Visconde de Celeirós Dom Toninho Castanheiros, o Visconde de Valverde Dom Vitinho Córócócó, o Cobrador Mor do Reino Dom Gigio, o Marquês de Calavinhos Dom Milkes Varredor, entre outros.
A grande maioria dos membros da nomenclatura é titular dos cartões laranja-prata. Têm algumas mordomias de forma escassa e espaçadas no tempo, são convidadas para alguns eventos mais importantes e para defender o partido nas horas difíceis, têm direito a uma ou outra merenda ocasional, sendo-lhes nessas ocasiões incutida a esperança raramente concretizada de virem a obter o cartão laranja-ouro. São titulares do cartão laranja-prata, o Visconde dos Cossacos Dom Pernache da Lousa, o Visconde de Jales Dom Tides Mais Branco não Há, o Marquês de Fonte Mercê Dom Tonho, o Barão de Vila do Pelo Dom Daniel sem Papel, a grande maioria dos alcaides, o Visconde da Régua Dom Farinheira Medes, o Conde de Paradela Dom Sebentino Melkes, o Visconde da Arreigada Dom António Barbarossa, o Conde de Argemil Dom Gualteriano Peixeira, etc, etc, etc.
Vem a seguir o cartão laranja-laranja, por muitos considerado o verdadeiro e puro cartão, cujos titulares são o povo crente e anónimo que ao longo dos anos com o voto tem sustentado esta classe politica e alguns que deram o litro, a saúde e até a própria vida, a troco de coisa nenhuma, com sejam o Dom Quintanilha da Triste Memória, o Duque de Argemil Dom Zé dos Diabos que chegou a ter assento nos órgãos nacionais, o Duque de Montenegro Dom Júlio da Abadia, e o filho do Visconde da Foz, Dom Julinho Pimentel.
Vem a seguir na ordem de importância o cartão laranja-rosa, cujos titulares são aqueles que mudaram de campo e de partido por motivos óbvios, como por exemplo, o irmão de Dom Caím Conde do Cutelo Melhor, o escriva do boletim oficial do reino Dom Quixote de La Silva e outra figuras menores.
No fim da escala está o cartão laranja-ás-riscas, ou como diz o povo “cor de burro a fugir”, cujos titulares são “personas não gratas” dentro do partido, mas que teimam em continuar apesar da grande maioria dos militantes os quererem ver pelas costas. Entre outros são titulares deste cartão o Marquês de Viagreta Dom Geninho Três Ais, e o Visconde de Alfarelos filho de El rei Dom João VI.



PS: O Barão de Ferreiros Dom Xico Mirandum, numa das inúmeras entrevistas que tem dado ultimamente, eximindo-se de qualquer responsabilidade na crise que atravessamos e fazendo um balanço da sua longa passagem pelo poder, disse que augura um futuro brilhante para o reino de Valdecacos.
Todos nós gostaríamos de acreditar nisso, mas o problema é que o Dom Xico Mirandum é um personagem por todos nós conhecido há demasiados anos, e todos nós sabemos que em termos de ordem politica a verdade é “coisa que não lhe assiste”.


Até Breve

Publicado no jornal "Tribuna Valpacense" em 20 de Abril de 2012

Sexta-feira, 13 de Abril de 2012

CRÓNICAS DO REINO IV SÉRIE

Depois de um périplo por alguns reinos europeus, aonde fui à procura de condições de trabalho, pois as coisas por aqui estão cada vez mais difíceis e complicadas com austeridade em cima de austeridade, os políticos comem-nos mais de metade da jorna que com sangue suor e lágrimas vamos conseguindo angariar, e o que resta dificilmente dá para levarmos uma vida digna e acima de tudo perspectivarmos um futuro para os nossos filhos.
De modo que, seguindo os conselhos do chefe do governo do condado Portucalense Dom Passos Guedelho, há que preparar o salto e emigrar, coisa a que os habitantes do reino de Valdecacos já estão mais que habituados, pois infelizmente a crise na nossa terra não começou em 2008, mas já vem de longa data, provocada por politicas erradas de desenvolvimento, em que se privilegiaram as obras de fachada, o caciquismo eleitoral, o fogo de artificio, em beneficio dum partido que nos governa há mais de trinta anos, e que levou à debandada da maioria da população, que não enche a barriga de passeios com pedrinhas e lancis de granito, nem de quatros pavilhões multidesuso, nem de cinco ou seis pavilhões gimnodesportivos, nem de trinta ou quarenta campos de futebol onde já nem as ovelhas vão por causa da seca, nem de meia dúzia de monumentos de gosto duvidoso, nem de inúmeras estradecas alternativas para aldeias despovoadas e que já tinham acesso condigno, nem de prédios cheios de habitações vazias, nem de centenas de lojas encerradas, nem de comércios falidos, nem de piscinas fechadas, nem de bibliotecas inauguradas para “inglês ver”, nem de feiras que deviam promover produtos e apenas promovem políticos, com um modelo completamente esgotado que não serviram para nada em termos de desenvolvimento agroindustrial, etc, etc, etc…
Este é um reino sem futuro para os jovens, ou quando muito terá futuro para meia dúzia com cartão laranja. Os únicos que vão sobrevivendo são os subsidiados (os que necessitam e os profissionais do subsidio, sendo esta segunda categoria muito mais numerosa) e os velhos, ou idosos como agora se diz, que são a larga maioria do povo, já sem forças para emigrar depois de uma vida difícil comendo o pão que o diabo amassou, vão vegetando no dia-a-dia amparados pela pensão da segurança social, que o governo local complementa com os “afectos” em troca do voto quadrienal.
Quando cheguei do reino do Luxemburgo havia uma notícia em todos os media do condado Portucalense referindo a nomeação pelo Vaticano de um novo Cardeal, sendo a primeira vez numa história de quase mil anos que o condado Portucalense tem três Cardeais. Esqueceram-se do reino de Valdecacos e do nosso Cardeal Mazzarino, que é de longe o decano dos Cardeais, pois há mais de trinta anos exerce, manipula, influencia, conspira e intriga junto do poder. A nova eleição para a comissão de pais, que teve de ser repetida por ordem do tribunal, foi novamente engendrada pelo Cardeal Mazzarino, que pôs toda a maquina eleitoral laranja ao serviço do protegido, embora de uma maneira mais discreta, viram-se ao longo da tarde eleitoral alguns alcaides a transportar pais e encarregados de educação, prontos a votar às ordens do Cardeal Mazzarino, mas pouco dispostos a apoiar a escola ou os educandos no que a esta diz respeito. Os professores de outros reinos que vieram supervisionar o acto eleitoral, ficaram impressionadíssimos com a mobilização e com o interesse dos pais e encarregados de educação, afirmando que nunca tinham assistido a nada de semelhante! Pois com toda esta mobilização e entusiasmo e com a previsível nomeação do novo director que será o mesmo de antigamente, de certeza que iremos ter a nossa escola classificada entre as dez primeiras do ranking nacional como aliás sempre tem acontecido…
O Cardeal Mazzarino orgulha-se de nunca ter perdido uma eleição em que se tivesse envolvido ou uma jogada política em que tivesse participado.
Hoje, estou convencido que a tentativa de por o Barão de Ferreiros Dom Xico Mirandum à frente da Confraria, falhou porque o Cardeal Mazzarino não foi o protagonista da história, e como tal não só não se empenhou, como minou algumas pedras base como tão bem ele sabe fazer!



PS: Jules Mazarin, nascido Giulio Raimondo Mazzarino e conhecido como Cardeal Mazzarino, nasceu em Pescina no reino de Nápoles no dia 14-07-1602 e morreu em Vincennes, França a 09-03-1661. Foi ordenado Cardeal em 1641 sem nunca ter sido ordenado Padre. Foi nomeado sucessor do Cardeal Richelieu e após a morte de Luis XIII tornou-se 1º Ministro de França.
Hábil, refinado e astuto, desligando-se do Vaticano tornou-se em pouco tempo senhor absoluto da França. Deixou vários escritos políticos, dos quais retiro a seguinte frase “ dissimulador é aquele que ora censura ora recomenda uma mesma atitude, conforme lhe vem ou cai melhor”.



Até Breve

Publicado no jornal "Tribuna Valpacense" em 16 de Março de 2012


Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

CRÓNICAS DO REINO IV SÉRIE


Lá para os lados do oriente existiu um reino situado em terras da Mesopotâmia, palavra cujo significado etimológico é, no meio dos rios, cujos nomes são o Tigre e o Eufrates, terras férteis e generosas, onde o maná e mel corriam com abundância e onde os historiadores situam o berço de todas a civilizações.
Pois foi por lá, nesse reino de sultões e de califas, frequentemente atravessado por caravanas que do extremo oriente traziam as sedas e as especiarias, o ouro o incenso e a mirra, que se formou uma quadrilha de 40 ladrões, que assaltavam as caravanas e guardavam os tesouros roubados numa gruta, em cuja entrada havia um enorme rochedo que se abria quando as palavras mágicas “abre-te sésamo” eram pronunciadas.
Ora um belo dia, andando por ali a apascentar meia dúzia de cabras, um belo, simpático e pobre rapaz chamado Ali Baba, ouvindo chegar no meio de grande poeirada os 40 ladrões montados nos seus camelos com o produto do roubo, escondeu-se e ouviu as palavras mágicas que abriram a gruta. Quando os ladrões se foram embora, o Ali Baba dirigiu-se à entrada da gruta, gritou “abre-te sésamo”, viu o rochedo abrir-se e lá dentro encontrou o maior dos tesouros que um homem pode imaginar e que o transformaram num aventureiro romântico e protagonista de inúmeras peripécias.
No reino de Valdecacos, temos uma instituição há muitos e muitos anos governada por um Ali Baba e 40 figurões, mas em contraponto com o lado romântico e aventureiro do Ali Baba do oriente, o Ali Baba de Valdecacos, é um personagem com um ar sinistro e um passado tenebroso, de carnes balofas e um cumprimento húmido e pegajoso que provoca arrepios. Os 40 figurões, ao longo dos anos e rotativamente, são convidados, manipulados, usados, comprometidos e descartados quando aprendem demasiado.
Tantas e tão poucas o Ali Baba foi aprontando ao longo dos tempos, umas com menos e outras de maior gravidade que a sua posição se tornou insustentável, as carradas e carradas de presuntos, salpicões, linguiças, alheiras e vinho, já não convencem ninguém, e as pressões foram de tal ordem que o Ali Baba teve de abdicar mas ficaram os 40 figurões, alguns com uma escola pouco recomendável, o que não augura nada de bom, outros não tão mal intencionados mas que dizem a tudo que sim, a troco de uma merenda gratuita.
O Ali Há Latas, ligado aos negócios estrangeiros, há longos anos residente no reino da Flávia embora nado e criado no reino de Valdecacos, foi a personagem escolhida para substituir o Ali Baba. Homem de personalidade forte, com um passado combativo e impoluto, esperemos que entre na gruta dos tesouros e mude as palavras mágicas mas não as revele a ninguém, caso contrário pela calada da noite quando se encontrar na Flávia a descansar, os que agora vão embora contra a vontade, voltarão para continuar a fazer aquilo em que estão viciados e todos sabemos como é grande a força do vício.
Teremos então mudança e ruptura com um passado que nos envergonha a todos, ou tudo isto não passará de uma encenação para esconder os podres que todos sabemos que existem e que se não forem erradicados, acabarão por contaminar mesmo o melhor dos intencionados?
Cuidado Ali Há Latas! No melhor pano cai a nódoa, e a gruta que durante tantos e tantos anos o Ali Baba considerou como sua, está cheia de lâmpadas de Aladino, mas estas com génios do mal embebidos numa gordura peçonhenta e mal cheirosa, cuja nódoa quando cai mesmo no melhor dos panos, é praticamente impossível de tirar.

Até Breve

Publicado no Jornal "Tribuna Valpacense" em 02 de dezembro de 2011

Segunda-feira, 28 de Novembro de 2011

CRÓNICAS DO REINO IV SÉRIE

Soube há pouco tempo que aquando da visita do Barão de Boliqueime Dom Regressado Silva ao reino de Valdecacos para inaugurar o agrupamento escolar, estaria prevista uma manifestação com cartazes empunhados por alguns ex-trabalhadores do hospital, mostrando o seu descontentamento pelo encerramento do mesmo, com todas as consequências negativas que daí vieram para as populações e também pela perda do posto de trabalho numa época de crise em que o desemprego aumenta assustadoramente.
Soube também que os cartazes acabaram por não aparecer por pressões várias do Barão de Ferreiros Dom Xico Mirandum, para quem pelos vistos, o direito à indignação e à manifestação do desagrado pela perda de um equipamento fundamental para o povo como era o hospital é menos importante que a imagem idílica, prosaica e cordata das criancinhas a bater palmas, num esquema ensaiado por professores e políticos que me fez lembrar as visitas do finado Almirante Américo Tomás, não faltando no fim da cerimónia um opíparo almoço para as entidades, pois ao contrario do sol, a crise quando nasce não é para todos.
Não houve um só ano desde a revolução de Abril, em que a dívida do condado Portucalense e de todos os reinos que o compõem não tivesse aumentado, encontrando-nos neste momento a braços com a maior crise de sempre. Os políticos, todos eles, gastaram o que tinham e o que não tinham, e quantos mais anos passaram no poder mais gastaram. Tanto no poder central como no poder local.
Quem não conhece obras faraónicas, obras desnecessárias, subsídios mal atribuídos, subsídios não aplicados na finalidade com que foram obtidos, ordenados chorudos, senhas de presença principescamente pagas por empresas públicas, viagens sumptuosas, carros topo de gama, assessorias mal justificadas e pagas a peso de ouro, etc. etc.  etc.
Pois agora o discurso politicamente correcto é o discurso da poupança e o nosso chefe do governo Dom Xico Mirandum, numa de bom aluno perante o afamado professor de finanças, lá foi dizendo que deixando as aldeias do reino às escuras durante a noite já conseguiu poupar 11 milhões de euros.
Essa quantia, daria para construir e equipar em excelente hospital que não temos.
Daria para construir um complexo de piscinas com parque de campismo e um mini Zoológico na zona da Freixeda, sonho antigo das gentes de Valdecacos, e que não temos.
Daria para apoiar a criação de empresas de transformação na indústria agro-alimentar (castanha, figo, frutos secos, azeitonas, compotas, etc.), criando emprego e fixando pessoas, mas que também não temos.
Daria para adquirir, reconstruir e conservar o pouco património histórico e arquitectónico do reino que se encontra ao abandono…
Daria para apoiar a criação de explorações familiares de porco bísaro, certificando o fumeiro como se faz no vizinho reino de Vinhais, criando emprego e fixando pessoas nas suas aldeias, fumeiro que entra na elaboração do folar que apesar de tantas feiras ainda não saiu da cepa torta.
Daria para construir de raiz uma escola profissional com cursos credíveis e virados para o mercado de trabalho, que também não temos…
Daria para construir e equipar o pólo universitário do Instituto Politécnico de Bragança, promessa não cumprida de uma campanha eleitoral, com protocolo assinado e tudo, mas que não temos…
Então para que serviram os 11 milhões de poupança? Estarão na Caixa a render? Ou serviram apenas politicas eleitoralistas que mantiveram no poder a mesma força política nos últimos 30 anos?
As cortes do condado Portucalense elegeram para sua presidente a Baronesa do Terreiro Dona Expropriação Esteves, nada e criada no reino de Valdecacos, jurista com carreira invejável, e que já tinha sido a primeira mulher a exercer funções no Tribunal Constitucional. Tendo já tido um voto de louvor e congratulação aprovado por unanimidade nas cortes de Valdecacos, vai agora presidir à inauguração da Biblioteca do reino. O Barão de Ferreiros Dom Xico Mirandum que dela disse o que o Maomé não disse do toucinho, por causa dos terrenos da zona industrial, em que o governo de Valdecacos foi condenado a pagar um balúrdio, terá agora que dizer o contrário, o que para um político há 30 anos no poder não é nada do outro mundo!!
O Marquês dos Colmeais, Dom Filipe Pratumba, personagem destas crónicas, há alguns anos arredado da vida política, deixou-nos prematuramente, não passando já de saudade, as animadas tertúlias no café Purgatório, com o Barão do Tanque Novo Dom Jota Xitunda, o Marquês de Águas Frias Dom Tino Flávia, o Duque de Manteigas Dom Joselito de La Estrela e Benfica e o Morgado de S. Francisco Dom Catalone El Bone. As suas “bocas” propositadamente destabilizadoras conhecidas como “pratumbadas”, levavam os outros intervenientes a um estado de quase apoplexia, deixando o Marquês de Tinoni Dom Bino Flavia de olhos arregalados atrás do balcão, quando se levantava, risonho a caminho dos Colmeais de melena ao vento, depois de ter provocado a maior das confusões. Imagino-o agora, na restinga do Lobito sentindo a brisa do mar e olhando o por do sol ímpar daquele rincão africano que ele tanto amava.

Até Breve
Publicado no jornal "Tribuna Valpacense" em 04 de Novembro de 2011

Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011

CRÓNICAS DO REINO SÉRIE IV


Lá se passaram as mais importantes festas do reino de Valdecacos, ou seja, as festas da Sr.ª da Saúde, que durante mais de 60 anos foram feitas e geridas pelo povo, característica essa que lhes conferia uma genuinidade impar, mas com o passar dos anos, por passividade, ingenuidade ou mesmo cumplicidade do próprio povo (ou pelo menos parte dele), foram completamente subvertidas e são agora dominadas pelo clero e pela nobreza, transformando-se numa mera manifestação de manipulação e poder.

No último dia de Agosto em plena semana das festas do reino de Valdecacos, numa atitude de completa subalternização ao vizinho reino de Mirandum, que tinha tido as suas festas como habitualmente no primeiro domingo de Agosto cheias de pompa e circunstancia, pois no dia 31 de Agosto a capital do reino de Mirandum teve lá a televisão do estado durante várias horas no programa “Verão total” com actuação de vários artistas sendo a cereja no cimo do bolo o famoso Dom Toni das Carreiras, a nós nesse mesmo dia mandaram-nos cá o filhito Dom Miguelito das Carreiras, para dar inicio ao programa que nos acompanha todo o ano e que é a “Pasmaceira Total”.

A procissão onde os sentimentos de recolhimento, fé, esperança e caridade estão cada vez mais ausentes, mais parece um desfile político-militar como os que havia do 1º de Outubro na praça vermelha em Moscovo no tempo do Brejnev.

Tive o cuidado de acompanhar a procissão e pude observar com estes que a terra há-de comer, o Barão de Ferreiros Dom Xico Mirandum ser cumprimentado e retribuindo por pessoas colocadas ao longo do trajecto pelo menos umas 700 vezes, eles eram amigos, correligionários, subsidiados, compadres, favorecidos, desempregados e afins…

O presidente das Cortes Dom Juanito de La Bisabuela lançando olhares furtivos à esquerda e à direita e com a cara circunstancial que ele tão bem sabe fazer, iria provavelmente ruminando a ideia de que os tempos de destaque e de abundância estão a terminar…

O Marquês de Calavinhos Dom Milkes Varredor provavelmente sonhando com futuras procissões em que ele será o mais cumprimentado…

O alcaide de Valdecacos e Marquês de Piscaneto Dom Zé Generoso, cogitando nas dificuldades que terá em estender uma vitória eleitoral a todo o reino, ultrapassando as fronteiras da capital…

Surpresa das surpresas a presença do Duque de Manteigas, Dom Joselito de La Estrela e Benfica. Ninguém me tira da cabeça que estará a preparar a candidatura à alcaideria de Valdecacos, provavelmente contando acima de tudo com o apoio dos benfiquistas pois os rosas estão na mó de baixo…

Se é certo que os andores não são mísseis, embora algumas beatas discutam entre si a potencia o alcance e o custo de cada um dos santos, dizei-me lá se isto não parece um desfile político-militar!!

O presidente do Condado Portucalense, esteve no reino de Valdecacos a inaugurar as novas instalações do agrupamento escolar. Excelentes instalações diga-se de passagem, decididas, financiadas e quase totalmente executadas durante o governo do Visconde de Vilar de Maçada Dom Zé Trócaste. Não sei se alguém nos discursos e na assistência teve uma palavra de agradecimento ou sequer se lembrou dele, julgo que não, como vedes a vida tem destas coisas difíceis de explicar e de entender. Um cartaz empenhado por dois corajosos velhotes, alertava o Barão de Boliqueime Dom Regressado Silva, que não é só de rotundas, centro escolar, e monumentos que se faz uma cidade. Para a grande maioria dos habitantes do reino, idosos e com pouca mobilidade o encerramento do hospital foi a mãe de todas a tragédias.

Se o povo do Condado Portucalense treme com a chegada dos elementos da Troika, que obriga o nosso governo a fazer-nos todas estas maldades, nós no reino de Valdecacos temos a Troika da Confraria, ou seja, o Marquês de Alfarelos, filho Del Rei Dom João VI, o Marquês de Viagreta Dom Geninho Três Ais e o Conde de La Bodega Dom Gualter de Los Jamones, cujo poder pelos vistos ultrapassa o do governo de Dom Xico Mirandum, das cortes de Dom Juanito de La Bisabuela, dos médicos liderados pelo Marquês do Pereiro Dom Alfonso de La Niña, dos enfermeiros, dos técnicos, dos trabalhadores, etc etc etc.

Se uma Troika incomoda muita gente, duas Troikas incomodam muito mais. Desgraçado povo do reino de Valdecacos que tanto tens penado e ainda terás que penar.



Até Breve

Publicado no jornal "Tribuna Valpacense" em 16 de Setembro de 2011

Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011

CRÓNICAS DO REINO IV SÉRIE


Ora aí estamos nós, em mais um Agosto do nosso contentamento. As ruas enchem-se de automóveis com matrículas esquisitas, alguns deles verdadeiros topos de gama que nos deixam com a boca aberta de espanto! De janela aberta, braço de fora e musica do Toni Carreira com os decibéis quase no máximo, são os nossos emigrantes, a matar saudades da família, do sol e das paisagens deste jardim à beira mar plantado, do qual o nosso reino também faz parte, embora numa situação um bocado esquecida e periférica, tão esquecida e tão periférica que a água do jardineiro-mor chega cá em escassa quantidade e a pouca que chega é mal distribuída, uns bebem muito e outros quase nada! Como se isto não bastasse ainda existem por aí uns ramais clandestinos, que vão transformando esta parte do jardim longe do mar plantado num autêntico sequeiro, as flores vão estiolando aos milhares, substituídas por um mato seco e rasteiro, que qualquer faísca ou ponta de cigarro transformarão num inferno dantesco para tudo terminar em escombros e em cinzas.
Cinzas, é o que estamos a ver em Londres, capital do reino de Inglaterra, onde a violência e a barbárie saíram à rua pelas mãos da juventude, que normalmente são as mais generosas de todas as mãos! Tão generosas que no reino da Noruega quase oitenta jovens foram imolados em nome de ideias que no mundo ocidental vão grassando e crescendo como a levedura no pão.
Pelas televisões entram-nos diariamente em casa cenas de violência, de fome, de desemprego, de náufragos, de refugiados. Tal como mancha peçonhenta de óleo, a crise alastra pela Europa fora. Agora já não são só os reinos de Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha, os famosos PIGS, que lutam contra a crise, os reinos de Itália e de França já tremem com a especulação dos mercados. Até a América, a maior economia do mundo, deu sinais de fraqueza provocando um crash bolsista, alarmando ainda mais os mercados. O presidente Dom Barraca Abana, homem em que todos depositávamos grandes esperanças, tem-se visto mais grego que os gregos para lidar com a situação. Cá dentro vão-nos limpar metade do subsídio de natal, subiram os transportes e vai subir o IVA, puseram na rua os boys para entrarem “especialistas”, venderam o BPN pelo preço de um jogador de futebol e a culpa não é do Visconde de Vilar de Maçada Dom José Trócaste?
Como é possível haver tanta desgraça no reino Portucalense na Europa no mundo e não há um jornaleco, uma estação de TV ou de rádio ou alguém que lhe aponte o dedo? Estávamos tão habituados a que isso acontecesse e ficávamos tão tranquilos quando ele arcava com as culpas que às tantas todas estas maldades continuam a ter por detrás o dedo do Dom José Trócaste!
Deixemos a Europa o mundo e o Condado Portucalense, regressemos como os emigrantes ao reino de Valdecacos, onde foi recentemente inaugurado um espaço de diversão nocturna, ao qual ainda não tive oportunidade de ir, mas que me disseram estar decorado e apetrechado com o que há de melhor, podendo vir a tornar-se num ponto de referência para toda a região. Ao Marquês da Torralta Dom Teotónio Limões, empresário que se meteu em mais esta aventura, os meus sinceros votos de êxito no empreendimento.
Estamos a menos de um mês das festas da Nossa Sra. da Saúde. Já estou a imaginar a procissão, os andores, as bandas, as autoridades civis e militares, o arcipreste, os acólitos, as figuras, os anjinhos e o povo. Será agora muito mais difícil à Sra. da Saúde fazer milagres estando o hospital fechado. Espero que os responsáveis pelo encerramento, não tenham a desfaçatez e a pouca vergonha de, afivelando a mascara de beatos, acompanharem a procissão da padroeira do hospital. Aos responsáveis religiosos e da comissão de festas, deixo-vos a sugestão de na procissão das velas, quando trouxerem a imagem da Nossa Sra. da Saúde para a igreja matriz, façam um desvio e passem pelo largo do hospital. Quem sabe um milagre não acontece? 



PS: Houve no vizinho reino de Mogadouro um evento publicitado em vários cartazes pendurados nos viadutos que atravessam os itinerários principais, com os seguintes dizeres “REDBURROS FLY IN”. Pois consta-se que estará a ser preparado um evento idêntico para o ano de 2013 no reino de Valdecacos, com o alto patrocínio do Marquês de Piscaneto Dom José Generoso, e que se designará “ORANGEBURROS FLY OUT”.

Publicado no jornal "Tribuna Valpacense" em 12 de Agosto de 2011

Segunda-feira, 25 de Julho de 2011

CRÓNICAS DO REINO IV SÉRIE

Quem vem do Porto pelo IP4, depois de atravessar o reino encantado de Miguel Torga, quando nos aproxima-mos dos reinos de Alijó e da Porca, vemos alguns placards informativos na berma da estrada de cor castanha e tamanho grande com os seguintes dizeres: “ALTO DOURO VINHATEIRO.PATRIMÓNIO MUNDIAL”. Trata-se do reconhecimento por parte da UNESCO do património paisagístico que o homem com força de vontade e de braços vem construindo e preservando há centenas de anos, nos milhares de socalcos que fazem parte da mais antiga região vinícola demarcada do mundo, e cuja exploração em termos turísticos vai de vento em popa.
Pois nas entradas norte, sul, este e oeste do nosso reino, vão ser colocadas placas idênticas com a seguinte informação: “BAIXO VALDECACOS PEPEDEIRO, PATRIMÓNIO MUNDIAL DO CACIQUISMO”.
Há mais de vinte anos que não se via no reino de Valdecacos um cozinhado em “banho-maria”, como o que se viu na eleição para a comissão de pais do agrupamento escolar. O governo de Dom Xico Mirandum resolveu por motivos de estratégia política, dar o beneplácito à lista que apoia o irmão de Dom Caím Conde do Cutelo Melhor. Trata-se dum personagem com cartão laranja, é enteado do presidente das Cortes Dom Juanito de Lá Bisabuela, será uma correia de transmissão do poder, não fazendo grandes ondas e ao mesmo tempo retiram-no da corrida à sucessão de Dom Xico Mirandum, sonho antigo e sempre acalentado pelo próprio, mas que poderia vir lançar mais confusão num processo que se antevê complicado.
O presidente das Cortes Dom Juanito de La Bisabuela meteu ombros à tarefa, convocou os alcaides necessários para angariar e transportar pessoas, requisitou os serviços da irmã do irmão de Dom Caím Conde do Cutelo Melhor, responsável da área social do governo, para fazer umas ameaças ao subsidio-dependentes e aos do rendimento mínimo, e foi um espectáculo digno de se ver, primeiro nas imediações do centro cultural depois dentro da sala, como se de uma autêntica festa tauromáquica se tratasse, as xicoelinas, os passes de peito, os derechazos, as manoletinas e os cabrestos, conduziram os matarruanos, os chavorrêlhos, os bragançanos e os subsidiados às urnas, para votarem numa lista de pais que apoia para director um professor que perdeu as eleições entre os seu pares por quase 80% dos votos.
Como se tudo isso não bastasse houve gente a mais para o tamanho do recinto, houve empurrões, houve insultos, havia gente com bebidas alcoólicas e alguns já bem compostos, enfim foi uma sorte não se ter dado uma tragédia.
Não foram motivos de ordem científica, ou de ordem pedagógica, ou tendo em vista uma maior autonomia da escola, ou qualquer preocupação com o futuro dos alunos que motivaram estas movimentações. Tratou-se apenas de uma demonstração gratuita de poder pelo poder, dum partido que se enquistou e que se julga dono de tudo e de todos, que não tem nada a ver com o partido do Marquês de Vila Real Dom Passos Guedelho, cujas atitudes até à data demonstram abertura à sociedade civil e um corte com os dinossauros e com as politicas do passado. No reino de Valdecacos ainda vigora para mal de todos nós o partido do Visconde de Maricá Dom Espadarte Lima e do Marquês da cidade da Praia Dom Dias Matreiro.
Os responsáveis pelo encerramento do Hospital de Valdecacos, continuam a passear-se no meio de nós com a maior desfaçatez. Até quando vamos permitir que isso aconteça? Esta verdadeira tragédia que aconteceu no nosso reino, provavelmente a maior desde a revolução dos cravos, teve como consequência uma aproximação de posições entre o Barão de Ferreiros Dom Xico Mirandum, e o Marquês do Pereiro Dom Alfonso de La Niña. Esta situação tem provocado um certo alvoroço a alguns elementos da nomenclatura laranja e da “entourage” rosa, tendo em vista os posicionamentos para a próxima corrida eleitoral. Consta-se que um dos mais irritados com esta situação é o Marquês de Alfarelos, filho Del Rei Dom João VI. Aqui há dias ouviram-no comentar referindo-se aos dois personagens supra-citados que “só lhes falta passearem de mão dada”.

Até Breve
Publicado no jornal "Tribuna Valpacense" em 08 Julho de 2011